
O presente texto propõe uma reflexão sobre a natureza da prática filosófica em Jacques Rancière, partindo de sua obra fundamental O Desentendimento. A problemática central reside na tensão entre a filosofia como uma instituição de saber “especializado” e a filosofia como um ato político de interrupção. O objetivo é analisar como o conceito de desentendimento atua como o motor do pensamento autêntico, diferenciando-se da mera gestão intelectual de conflitos sociais.
Rancière estabelece uma demarcação crítica entre a filosofia e as demandas sociais de utilidade imediata. Para o autor, existe uma tendência das corporações — políticas, jurídicas ou médicas — de domesticar o filósofo, transformando-o em um “especialista da reflexão” cuja função seria chancelar decisões ou harmonizar o corpo social. No entanto, o autor contesta essa posição:
A filosofia não socorre ninguém e ninguém lhe pede socorro, mesmo que as regras de conveniência da demanda social tenham instituído o hábito de políticos, juristas, médicos ou qualquer outra corporação — quando esta se reúne para pensar — convidarem o filósofo como especialista da reflexão em geral. Para que o convite produza algum efeito de pensamento, é preciso que o encontro descubra seu ponto de desentendimento. (RANCIÈRE, 2018, p. 9).
O “desentendimento” ranciéreano não deve ser confundido com um simples ruído na comunicação ou uma divergência de opiniões que o diálogo poderia resolver. Ele é, antes, um litígio sobre o próprio “sensível”: um conflito sobre o que é visível e quem tem legitimidade para falar.
Quando a filosofia se limita a responder aos apelos das corporações, ela corre o risco de se tornar um braço da “polícia” — termo que Rancière utiliza para designar a ordem que distribui corpos, lugares e funções na sociedade. O “efeito de pensamento” mencionado na citação ocorre apenas quando o filósofo revela a fratura oculta sob o consenso, demonstrando que a harmonia social é frequentemente mantida pela exclusão de uma parcela da sociedade que “não tem parte”.
Em suma, a citação analisada funciona como um manifesto contra a institucionalização do pensamento. Conclui-se que a filosofia ranciéreana só cumpre sua função quando se recusa a ser um saber de conveniência. O pensamento real nasce da ruptura e da descoberta do ponto onde a lógica da dominação é confrontada pela lógica da igualdade. Assim, o papel do filósofo não é oferecer socorro ou respostas prontas, mas sim sustentar o desentendimento como a condição necessária para a emergência do político.
Referência
RANCIÈRE, Jacques. O Desentendimento: política e filosofia. Tradução de Ângela Leite Lopes. São Paulo: Editora 34, 2018.
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