
A história das ideias e das manifestações sociais não se desenvolve em uma linha contínua de progresso, mas em movimentos pendulares de expansão e retração da liberdade expressiva. Todas as épocas vivenciam períodos de efervescência comportamental seguidos por surtos de reação e normalização. Nesse cenário, os movimentos de teor conservador, enquanto guardiões dos parâmetros vigentes, não representam anomalias históricas, mas forças permanentes. Eles sempre existiram e continuarão a surgir como mecanismo de autopreservação da ordem estética, moral ou institucional.
É no âmbito dessa dinâmica entre norma e desvio que emerge a gíria contemporânea do “farmar aura”: prática digital e comportamental que busca acumular capital simbólico, elegância velada ou uma presença imponente por meio de atitudes friamente calculadas de indiferença, estilo ou autenticidade performada. O termo, apropriado do universo dos videogames (onde “farmar” significa acumular recursos com esforço continuado), tornou-se alvo de críticas no debate cultural – inclusive com casos de prefeitura proibindo o evento, como aconteceu em Cuiabá. Acusa-se o movimento de futilidade, de estetização vazia da vida cotidiana e de uma busca superficial por validação nas redes sociais; e no caso do prefeito de Cuiabá, segundo ele, o ato é “coisa de gay”.
Contudo, ainda que o “farmar aura” se desenhe como uma febre passageira, condensa-se aqui uma intuição sociológica fundamental: o desejo humano ininterrupto de buscar novas formas de se expressar. A busca por “aura” revela que, mesmo sob o império do consumo rápido, persiste no indivíduo o ímpeto de distinguir-se do vulgar, de opor uma postura singular ao achatamento das massas e de reivindicar um patamar superior de sensibilidade ou conduta.
Para compreender essa fricção entre a norma social e o ruído da diferenciação, a filosofia de Jacques Rancière oferece uma chave analítica preciosa com o conceito de Dissenso (dissensus). Para Rancière, a política autêntica e a verdadeira ruptura artística ocorrem quando a “partilha do sensível” – isto é, o modo como a sociedade organiza o que é visível, dizível ou audível – é interrompida. O dissenso não é mero desacordo ideológico, mas a introdução de um ruído que desconfigura a ordem estabelecida (a “polícia”, no léxico rancièriano), permitindo que aquilo que antes era invisível ou desprezado reivindique presença e significado.
A reação conservadora contra o dissenso estético e social revela uma característica estrutural do próprio conservadorismo: historicamente, o sujeito conservador não está genuinamente preocupado em diagnosticar ou resolver as mazelas reais e profundas do país, mas sim em proteger a manutenção do status quo que lhe assegura privilégios. Essa postura fica evidente na trajetória de Monteiro Lobato no início do século XX. Homem de contradições profundas, Lobato personificou a recusa em aceitar a transformação social e artística do Brasil. Reconhecido por sua obra infantil, o escritor sustentava convicções eugênicas e explicitamente racistas. Em carta escrita ao amigo Arthur Neiva em 1928, Lobato chegou a defender abertamente a atuação de grupos supremacistas no Brasil:
“Paiz de mestiços onde o branco não tem força para organizar uma Kux-Klan, é paiz perdido para altos destinos. […] Um dia se fará justiça ao Klux Klan […] que mantem o negro no seu lugar”.
Ao mesmo tempo em que ostentava essa visão reacionária, preferindo a manutenção de uma hierarquia racial violenta à superação das desigualdades estruturais da nação, Lobato direcionou sua verve crítica contra as vanguardas estéticas. Em seu famoso artigo “Paranóia ou Mystificação?” (1917), investiu de maneira impiedosa contra a exposição de Anita Malfatti e contra o espírito de renovação que culminaria na Semana de Arte Moderna de 1922.
Para Lobato, a renovação modernista representava uma “arte doentia”. O escritor tentava desesperadamente blindar a ordem vigente contra o impacto da modernidade, demonstrando que a fúria conservadora contra o novo é, no fundo, a angústia de ver desmoronar o arranjo de poder e prestígio tradicional.
Nesse horizonte moral deformado, estabelece-se um paralelo direto com o debate público contemporâneo: se a prática do “farmar aura” , ou qualquer performance estética juvenil, choca mais a opinião pública e os guardiões da moral do que a tragédia cotidiana e sistemática da morte de mulheres, negros e pessoas LGBT no Brasil, assistimos à repetição exata do ato de Lobato. Há uma hipocrisia estrutural em escandalizar-se com a suposta futilidade do comportamento alheio enquanto se permanece completamente anestesiado e conivente diante da barbárie real que devora vidas vulneráveis todos os dias. A moral conservadora escolhe a dedo o que deve causar repulsa: ataca o ruído inofensivo da cultura para não ter de enfrentar o sangue que sustenta o status quo.
O confronto entre a norma e a ruptura ganha sua expressão mais radical com o Dadaísmo, movimento surgido em Zurique em meio ao horror da Primeira Guerra Mundial e que influenciou o modernismo atacado por Monteiro Lobato. Ao apresentar objetos do cotidiano como obras de arte (a exemplo do urinol de Marcel Duchamp), os dadaístas demonstraram que, nos movimentos de contracultura, o produto final é secundário em relação ao gesto e ao que ele simboliza. O objeto dadaísta não valia pela sua técnica ou apelo decorativo, mas pelo desacato que representava diante do elitismo burguês que havia conduzido o mundo à barbárie. É assim que funcionam os campeonatos de “farmar aura”: não é para ser bonito, é para transgredir.
Do Dadaísmo às estéticas juvenis como o “farmar aura”, percebe-se que a contracultura opera pela ressignificação do ato. O “farmar aura” pode não ter o rigor político das vanguardas do século XX, mas compartilha da mesma lógica simbólica: importa menos a ação em si e mais a postura de recusa ao ordinário, o enquadramento do gesto como ato de afirmação pessoal.
Toda época tentará enquadrar a expressão humana dentro de limites previsíveis. No entanto, enquanto houver espaço para o dissenso, a cultura continuará a metamorfosear seus códigos.
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