Num certo dia, ouvi alguém dizer: “A moda já nasce velha. Você ainda nem chegou com sua sacola com o vestido novo em casa e já tem muitas pessoas pesquisando, criando e produzindo o que você vai desejar comprar em menos de 6 meses”. Esta frase não é apenas uma observação cotidiana, mas é a minha tese central e a sentença definitiva sobre a nossa era.

Defendo que a moda, sob as engrenagens do capitalismo tardio e do fast fashion, opera através de uma crueldade velada: a obsolescência programada do desejo. O motor dessa indústria não é a beleza, a funcionalidade ou a expressão da identidade; é a produção contínua e deliberada de uma falta, de um vazio insaciável. O ato de comprar uma roupa nova e levá-la para casa já a destitui de seu valor de novidade. O tempo da moda foi de tal forma acelerado que o presente foi anulado. A minha posição é clara: nós não consumimos o objeto em si, mas sim a promessa de atualidade que ele representa — uma promessa com prazo de validade que expira em menos de seis meses.

A ILUSÃO DA AUTONOMIA: O DIAGNÓSTICO DO AZUL-CERÚLEO

Para compreender como essa engrenagem nos manipula, recorro a uma ilustração pop perfeita: a antológica cena do filme O Diabo Veste Prada, onde a implacável editora Miranda Priestly dá uma lição de anatomia de mercado à sua assistente Andy a propósito de um simples suéter azul-cerúleo.

Quando Andy sorri com desdém diante de dois cintos aparentemente idênticos, julgando-se imune e exterior àquele universo de “futilidades”, Miranda destrói a sua ilusão de autonomia. A lição ali dada é a prova do que afirmo: aquele azul não foi uma escolha casual de uma jovem intelectuada que “não se importa com o que veste”. Foi uma decisão tomada anos antes por estilistas de alta-costura, filtrada pelas grandes revistas, copiada pela indústria de massas e, finalmente, despejada num cesto de liquidações onde Andy o comprou.

Aqui está o cerne da minha crítica: Andy, ao vestir seu suéter velho achando que estava fora do sistema, comportava-se exatamente como a massa alienada. Ela é o exemplo vivo de uma consumidora passiva de um subproduto cujo significado original já havia sido esvaziado pela indústria. A autonomia na moda é um mito.

A DIALÉTICA DO VESTIR E A ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL

Esse “efeito gotejamento” serve de ponte para a análise sociológica e psicanalítica de Slavoj Žižek em sua obra “Menos que nada – Hegel e a sombra do materialismo dialético”. Em sintonia com o que defendo, Žižek propõe uma dialética do vestir que divide a sociedade não apenas pelo poder de compra, mas pela relação neurotizada que cada classe tem com o tempo. Segundo Žižek,

“em relação à moda, os pobres não se importam com a maneira de se vestir; a classe média baixa tenta seguir a moda, mas está sempre atrasada; a classe média alta veste-se de acordo com a última moda; os que estão no topo, os que ditam as tendências, também não se importam com a maneira de se vestir , desde que essa maneira seja a moda”.

  • A Base (Os Excluídos): No fundo da pirâmide, os mais desfavorecidos vestem o que é acessível e puramente funcional — uma necessidade de sobrevivência onde até a marca “pirateada” serve como tentativa de inserção.
  • A Classe Média Baixa (Os Atrasados): Vive na ansiedade da perseguição representada pelo destino final do suéter cerúleo. Tenta emular os padrões vigentes, mas está fatalmente condenada ao atraso crônico. Quando consegue acessar um estilo, ele já foi abandonado pelo topo.
  • A Classe Média Alta (Os Obcecados): Converte o vestuário num uniforme rígido de validação. Vestem-se sob os ditames da “última moda” para sinalizar status e proximidade com a elite.
  • O Topo (Os Ditadores de Tendências): Aqui reside o ponto mais refinado do argumento. A elite econômica e cultural — as “Mirandas Priestly” da vida real — manifesta um aparente “desprezo” pela maneira tradicional de vestir. Contudo, eu afirmo que essa indiferença é o derradeiro artifício de distinção social. Eles dão-se ao luxo de parecer desleixados, casuais ou excêntricos precisamente porque essa atitude de desapego é a nova vanguarda. É a estetização da própria negligência.

CONCLUSÃO: A ESTEIRA ROLANTE DO CAPITALISMO

A afirmação de que “a moda já nasce velha” é o combustível necessário para manter viva a distância intransponível entre as classes sociais. Para que os que estão no topo continuem a ditar o que é “novo” através de seu desleixo planejado, a máquina industrial precisa massificar, baratear e envelhecer rapidamente o azul-cerúleo que a classe média acabou de adotar.

A moda e a sua estética não são escolhas ingênuas. Elas são uma encenação altamente coreografada do capitalismo. Minha posição final é que o consumidor comum está condenado a correr desesperadamente numa esteira rolante que se move para trás. Tentamos, de forma patética e exaustiva, capturar um conceito de “atualidade” que, por definição, já deixou de existir no topo no exato momento em que chegou às prateleiras do mercado de massas.

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