“Talvez só possamos colocar a questão ‘o que é filosofia’ tardiamente, quando chega a velhice, e a hora de falar concretamente. Esta é uma questão que enfrentamos numa agitação discreta, à meia-noite, quando mais nada resta a perguntar.” — Gilles Deleuze e Félix Guattari, O Que é a Filosofia?

Quando Gilles Deleuze e Félix Guattari publicaram, em 1991, aquela que seria a sua última obra conjunta, não o fizeram sob o signo da vaidade acadêmica ou do mero balanço historiográfico. A emblemática abertura de O Que é a Filosofia? introduz uma temporalidade que desafia a urgência constitutiva da modernidade. Dizer que a questão sobre a natureza da filosofia só se coloca “tardiamente, quando chega a velhice”, está longe de ser uma afirmação psicológica banal ou um lamento nostálgico sobre o crepúsculo da vida. Trata-se, fundamentalmente, de um argumento filosófico estruturado em camadas profundas que redefinem a própria prática do pensamento.

A PERSPECTIVA CONQUISTADA: O FAZER E O PERGUNTAR
A primeira dessas camadas repousa na relação intrínseca entre o ato de criação e o recuo da interrogação. Quem se encontra plenamente imerso na mecânica de uma atividade não suspende o gesto para inquirir a sua essência: o carpinteiro em pleno trabalho não interrompe o cinzel para perguntar o que é a carpintaria. Da mesma forma, o filósofo jovem, impelido pelo calor do acontecimento, encontra-se inteiramente ocupado com a urgência dos problemas, com a invenção de conceitos, o combate com os seus adversários contemporâneos e o esquadrinhamento dos textos.

A pergunta sobre a natureza da própria atividade exige uma distância analítica que apenas a temporalidade interna da prática pode outorgar. A “velhice”, neste contexto, surge como uma metáfora conceitual desse recuo: não representa o abandono das forças ou o declínio da inventividade, mas sim a perspicácia e a perspetiva conquistadas pelo tempo acumulado no interior do próprio fazer filosófico.

A SOBRIEDADE COMO CONDIÇÃO DO CONCRETO
Desta distância emerge uma segunda exigência: a necessidade de falar “concretamente”. Na juventude do pensamento, a interrogação “o que é a filosofia?” é frequentemente capturada por uma aura de grandiosidade e heroísmo. Responde-se-lhe com a altivez dos grandes manifestos: a filosofia como o caminho absoluto para a verdade, a emancipação definitiva da caverna platônica, o Espírito absoluto reconhecendo-se a si mesmo na história, ou a fundamentação derradeira de todo o saber humano. Embora tais respostas se alimentem de um entusiasmo legítimo, pecam por uma imprecisão inflacionada.

A velhice conceitual introduz o que Deleuze e Guattari designam por sobriedade. Trata-se da capacidade de articular uma definição precisa, despida de ornamentos retóricos ou de ambições messiânicas. Esta sobriedade não deve ser confundida com o cinismo ou o desencanto; é, antes, o triunfo da precisão sobre a ilusão. É saber exatamente o que a filosofia pode e não pode fazer, definindo-a, como viriam a estabelecer, estritamente como a arte de formar, inventar e fabricar conceitos.

Existe, além disso, uma dimensão autobiográfica incontornável que ancora esta tese. Deleuze contava com 66 anos e Guattari com 62 aquando da publicação do texto. Haviam partilhado mais de duas décadas de uma escrita comum que revolucionou o pensamento ocidental — produzindo obras-primas como O Anti-ÉdipoMil PlatôsKafka e Rizoma. Olhar retroativamente para o percurso percorrido constitui a única postura honesta de quem operou no tecido vivo da disciplina e reivindica o direito de compreender o que de facto produziu. A pergunta tardia é mais honesta precisamente porque deixa de ser especulativa: ela tem uma obra inteira como material de exame.

INVERSÕES DA AVE DE MINERVA: A MEIA-NOITE DELEUZIANA
É impossível não escutar aqui um eco da célebre formulação de Hegel no prefácio às sua Filosofia do Direito, onde se afirma que a coruja de Minerva apenas alça o seu voo ao anoitecer. Para o idealismo hegeliano, a filosofia compreende a história e a cultura apenas quando uma forma de vida já envelheceu, operando uma síntese do passado. Deleuze e Guattari operam uma inversão radical deste tropo: o voo não se faz para apreender o sentido findo da história exterior, mas para que o próprio filósofo compreenda a sua atividade interna. Enquanto a ave hegeliana plana ao crepúsculo para compreender a história, a ave deleuziana aguarda pela meia-noite profunda para compreender a própria filosofia.

Trata-se de uma inquietação que os autores qualificam como uma “agitação discreta”. A expressão é cirúrgica na sua tensão paradoxal. A agitação evoca a vibração, o movimento e a perturbação interna; o adjetivo “discreta” retira-lhe qualquer pendor performático, ruidoso ou espetacular. Descreve-se, assim, um estado afetivo e cognitivo singular: não a angústia existencial dramática ou a iluminação mística, mas a curiosidade genuína e silenciosa de quem, desprovido de audiência ou da necessidade de impressionar, se interroga na intimidade sobre o sentido real da sua longa jornada.

Quando a pergunta é feita em público, em congressos ou prefácios institucionais, as respostas tendem à grandiloquência. No silêncio da agitação discreta, sem público, ela ganha o direito à honestidade.

O LIMITE TEMPORAL E O ESGOTAMENTO PRODUTIVO
A “meia-noite, quando mais nada resta a perguntar” funciona como uma metáfora polissémica que opera em múltiplos registos simultâneos:

  • O registo temporal e fenomenológico: A meia-noite assinala o limite do dia, o instante em que as interrogações de ordem instrumental, quotidiana e pragmática silenciaram. As perguntas sobre a urgência do agir, as querelas acadêmicas e as agendas técnicas esvaziaram-se. Há aqui uma clara ressonância com a tradição fenomenológica: assim como Heidegger sugeria que a questão do Ser emerge quando os entes quotidianos deixam de funcionar e a ferramenta se quebra, Deleuze e Guattari propõem que a questão da filosofia só emerge quando todas as outras questões filosóficas derivadas já foram esgotadas.
  • O registo da finitude: Para os autores, esta temporalidade não era uma figura de estilo. Félix Guattari faleceria no ano subsequente à publicação; Gilles Deleuze enfrentaria o agravamento severo da sua condição de saúde. A pergunta formulada à meia-noite da vida carrega uma gravidade existencial ausente no meio-dia da juventude: ela provém de quem reconhece a escassez do tempo, exigindo uma urgência sem pressa e uma precisão sem ansiedade.
  • O registo dionisíaco: Manifesta-se aqui a herança de Friedrich Nietzsche e o seu místico aforismo da meia-noite em Assim Falou Zaratustra“O mundo é profundo / E mais fundo do que o dia pensava”. A meia-noite não representa o triunfo das trevas ou do obscurecimento, mas sim a conquista de uma lucidez radical. Apagada a claridade artificial do dia — com as suas modas intelectuais e imperativos institucionais —, resta o núcleo irredutível do pensamento. É o esvaziamento do espaço que permite contemplar a sua real arquitetura.

CONCLUSÃO: UMA RECUSA POLÍTICA
Em suma, a célebre passagem de Deleuze e Guattari restitui à questão “o que é a filosofia?” o seu estatuto de término, e não de início. Ela não inaugura a carreira do pensador; encerra-a e confere-lhe sentido retroativo. A velhice é a condição existencial desse recuo; a meia-noite é a condição temporal do silêncio necessário; a agitação discreta é o estado afetivo correto: nem indiferença, nem drama, mas uma inquietação serena que finalmente pode voltar-se para si mesma.

Ao postular que esta interrogação exige o recolhimento, os autores operam também um ato de profunda resistência política. Recusam liminarmente a domesticação burocrática da disciplina, as suas versões curriculares, os programas de curso e as encenações de manifestos. Compreender a filosofia não é um exercício de erudição abstrata, mas uma questão de vida, paga de forma justa e tardia por aqueles que ousaram habitar o seu silêncio.

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