Lendo o livro “O que é a filosofia”, de Gilles Deleuze e Félix Guattari, me deparei com uma situação que me deixou confuso: em um momento ele diz que (2010, p. 11) “a filosofia não é uma simples arte de fabricar conceitos”, logo depois ele diz que “rigorosamente, a filosofia é a disciplina que consiste em criar conceitos”. Pensei: e como assim fabricar e criar são diferentes? Esse ponto, então, apresenta um enigma formal que confunde o leitor desavisado – como eu. Então, de que modo conciliar a rejeição da fabricação com a apoteose da criação?

A NUANCE GRAMATICAL

A chave para desatar esse nó conceitual reside na sutileza lógica operada pelos filósofos. O segredo da aparente contradição desfaz-se diante de um detalhe estilístico essencial: o adjetivo simples.

Ao asseverar que a filosofia não é uma simples arte de fabricar, os autores não estão banindo o labor técnico, mecânico ou manual do pensamento. Eles estão alertando contra o perigo da redução. O erro que se combate não é o ato de dar forma ao conceito, mas sim o de rebaixá-lo ao estatuto de um mero produto ou de uma ferramenta utilitária. O conceito não brota espontaneamente como um fruto da natureza, nem é manufaturado em série para atender às demandas de mercado.

A TECITURA DO PENSAMENTO: FABRICAÇÃO VERSUS CRIAÇÃO

Para compreendermos a diferença qualitativa entre os dois termos, precisamos recorrer à própria tradição que Deleuze e Guattari evoca ao citar Friedrich Nietzsche. O filósofo da dinamite afirmava que os pensadores devem começar por “fabricar” e “criar” seus conceitos. Há, portanto, um duplo movimento indispensável à prática filosófica.

fabricação (fabriquer) diz respeito à dimensão artesanal, ao ofício laborioso da linguagem. Trata-se da escolha exata das palavras, da lapidação das arestas gramaticais, da forja estrutural que sustenta o argumento. É um trabalho pesado, de oficina. O filósofo precisa ser um operário das palavras. Contudo, se o pensamento estacionar na mera fabricação, o resultado será um artefato inerte, um exercício acadêmico estéril ou, pior, uma mera peça de retórica voltada ao consumo ideológico.

É aqui que a criação (créer) se manifesta como uma força de natureza distinta. A criação é um ato de necessidade vital. Cria-se um conceito não por capricho intelectual, mas porque o mundo, em sua complexidade ou em seu sofrimento, gerou um problema novo que as ferramentas antigas são incapazes de decifrar. Enquanto o objeto puramente fabricado guarda uma exterioridade fria em relação a quem o fez, o conceito criado é indissociável da vida do pensador. Ele exige o que os autores chamam de “assinatura”: a marca indelével de uma subjetividade que arriscou o próprio pensamento diante do caos.

CONCLUSÃO: O OPERÁRIO E O CRIADOR

Longe de se contradizer, Deleuze e Guattari operam uma bela síntese sobre o fazer filosófico: a filosofia necessita da técnica da fabricação, mas só se legitima através da transcendência da criação. O filósofo é o artesão que suja as mãos na oficina da linguagem, manejando a matéria-prima do verbo, com o único propósito de trazer à luz algo que a mera técnica jamais poderia prever ou garantir: um acontecimento puro, um novo horizonte para o pensamento vivo.

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